segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Mestre Dogen



 Setembro, é o mês que lembramos o falecimento e homenageamos os ensinamentos do mestre Dogen, fundador da escola soto do zen. Ele viveu entre 1200 e 1253.
Entre outros, o mestre Dogen nos deixou ensinamentos como: 

  •  “Finalmente, é inútil tentar conduzir outras pessoas e a mim mesmo meramente através do estudo intelectual de kôans e biografias de mestres.” 
  •  “É verdade, podes ter um apanhado conceptual e intelectual de uma passagem do kôan, mas é por isto que estás longe do Caminho dos buddhas e ancestrais. Faze apenas o zazen ereto, dia e noite, livre da expectativa de obter a iluminação através disto, e imediatamente te identificarás com o Caminho dos buddhas e ancestrais.”
  • “Praticantes Zen não devem seguir cegamente o que os mestres disserem, mas ter uma visão crítica. A dúvida pode ser um pecado, mas também está errado não questionar o que deve ser questionado.” Isto significa que a verdade buddhista é só a verdade, não as palavras de antigos mestres sobre o assunto. 
  • "Estudar o caminho é estudar a si mesmo
    Estudar a si mesmo é esquecer a si mesmo
    Esquecer a si mesmo é se iluminar por todas as coisas
    Estar iluminado por todas as coisas é a remoção das barreiras entre si mesmo e os outros"

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Mente de Principiante


"Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito."
As pessoas dizem que é difícil praticar Zen, mas há um mal-entendido quanto ao "porquê". Não é difícil porque seja árduo sentar-se de pernas cruzadas ou atingir a iluminação. É difícil porque é árduo manter a mente pura ou a prática pura em seu sentido fundamental. A escola Zen desenvolveu-se de muitas maneiras depois de estabelecida na China mas, ao mesmo tempo, tornou-se cada vez mais impura. Contudo, não é sobre o Zen chinês ou sobre a história do Zen que eu quero falar. O que me interessa é ajudar você a manter sua prática livre da impureza. No Japão, dispomos do termo shoshin, que significa "mente de principiante". O objetivo da prática é conservar nossa "mente de principiante". Suponhamos que você recite o Prajna Paramita Sutra uma só vez. Poderia ser uma boa recitação. Mas o que lhe acontecerá se o recitar duas, três, quatro ou mais vezes? Você poderia facilmente perder sua atitude original em relação a ele. O mesmo acontecerá com suas outras práticas Zen. Por algum tempo você manterá sua mente de principiante, porém, se continuar a prática um, dois, três anos ou mais, embora você possa melhorar em alguns aspectos, é possível que perca o sentido ilimitado da "mente original".

Para os estudantes do Zen, o mais importante é não serem dualistas. Nossa "mente original" inclui em si todas as coisas. Ela é sempre rica e autossuficiente. Você não deve perder esse estado mental auto-suficiente. Isto não significa uma mente fechada e sim, na verdade, uma mente vazia e alerta. Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito. Se você discrimina demais, você se limita. Se é exigente ou ambicioso em excesso, sua mente não é rica nem autossuficiente. Se nossa mente perder sua auto-suficiência original, todos os preceitos se perderão. Quando sua mente se torna exigente, quando você anseia por algo, você acaba por violar os preceitos: não mentir, não roubar, não matar, não ser imoral e assim por diante. Se você conservar sua mente original, os preceitos se manterão por si próprios. Na mente do principiante não há pensamentos do tipo "eu alcancei algo". Todos os pensamentos egocentrados limitam a vastidão da mente. Quando não alimentamos pensamento nenhum de conquista, nem pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos então aprender alguma coisa de fato. A mente do principiante é mente de compaixão. Quando nossa mente é compassiva, torna-se ilimitada. O mestre Dogen, fundador da nossa escola, sempre enfatizou a importância de preservar nossa mente original ilimitada. Com ela somos verdadeiros conosco, estamos em comunhão com todos os seres e podemos, de fato, praticar. Assim, a coisa mais importante é manter sua "mente de principiante". Não há necessidade de ter uma profunda compreensão do Zen. Mesmo que você leia muita literatura Zen, deve ler cada frase com uma mente virgem. Nunca deve dizer: "Eu sei o que é Zen" ou "eu atingi a iluminação". O real segredo das artes também é esse: ser sempre um principiante. Seja muito cuidadoso nesta questão. Se começar a praticar zazen, você começará a valorizar sua mente de principiante. Este é o segredo da prática do Zen

Trecho do livro Mente Zen, Mente de Principiante - mestre Shunryu Suzuki

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Deixar Cair Corpo E Mente

“Se praticantes Zen tiverem, em primeiro lugar, a prudência de controlarem suas mentes, tanto mais fácil ser-lhes-á deixar a si mesmos, e ao mundo renunciar. Mas isto não é nada fácil. Monges há, que por exemplo, cientes da reputação pública não farão coisas ruins, dizendo: “Como isto está errado, é possível que outros nos julguem mal.” Procuram então fazer o bem ao serem observados, crendo piamente que todos os demais lhes admirarão muito com isto. Contudo, estas são meramente opiniões comuns e mundanas. Existe, contudo, o outro lado da moeda, como aqueles que se comportam como bem entendem, e estes são vilões de verdade! O fato é que monges devem praticar o buddhismo pelo buddhismo, esquecidos de seus corpos de apego e impermanentes. Devem lidar com as situações de acordo com o momento. Principiantes no Caminho devem abster-se de fazer o mal e fazer o bem, quer seja por vontade própria ou por moralidade. A isto se chama deixar cair corpo e mente.”

 Trecho do livro Shobogenzo Zuimonki de Eihei Dogen Zenji 

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Sobre a Felicidade Pessoal

"Buda ensinou que até mesmo a felicidade pessoal é dukka - uma palavra da língua páli que significa "sofrimento" ou "insatisfação". Ela é inseparável do seu oposto. Significa que a felicidade e a infelicidade são, na verdade, uma coisa só. Somente a ilusão do tempo as separa.
Isso não significa uma negatividade. É simplesmente reconhecer a natureza das coisas, para não viver atrás de uma ilusão pelo resto da vida. Nem quer dizer que você não deva mais apreciar os objetos e as circunstâncias agradáveis e bonitas. Porém, usá-los para procurar aquilo que não podem dar - uma identidade, um sentido de permanência e satisfação - é uma receita para a frustração e o sofrimento."

trecho extraído do livro " O Poder do Agora", de Eckhart Tolle, pela editora Sextante

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O Elefante


Nāgavagga: O Elefante
320. Tal como um elefante no campo de batalha resiste ao tiro de flechas disparadas de arcos em volta, assim também devo eu suportar o abuso. Há muitas pessoas a quem de facto, falta a virtude.
321. Um elefante treinado é conduzido à multidão, e o rei monta um elefante treinado. O melhor dos homens é aquele que se dominou e que suporta o abuso pacificamente.
322. Excelentes são as mulas bem treinadas, os cavalos puro-sangue Sindhu e os elefantes adultos fortes. Mas melhor ainda é o homem que se disciplina a si próprio.
323. No entanto, não é usando as montadas que alguém chega à Terra Inexplorada (Nibbāna), mas com auto-domínio, com a mente bem disciplinada.
324. Com o cio o elefante adulto chamado dhanapālaka é incontrolável. Mantido em cativeiro, o elefante não toca num pedaço de comida, mas unicamente se lembra com saudade da floresta.
325. Quando um homem é preguiçoso e glutão, dormindo e rolando na cama como um porco doméstico, esse preguiçoso está sujeito ao constante renascer.
326. Anteriormente esta mente vagueou como quis, aonde bem desejava e de acordo com o seu prazer, mas agora está aperfeiçoada naturalmente com sabedoria, tal como o tratador de elefante o controla com seu aguilhão na altura do cio.
327. Delicia-te na diligência! Guarda bem os teus pensamentos! Sai para fora deste lodaçal do mal, tal como um elefante sai da lama.
328. Se, como companhia encontras um amigo sábio e prudente, levando uma vida boa, deves, superando todos os obstáculos, manter essa companhia com alegria e consciência.
329. Se como companhia não encontras um amigo sábio e prudente que leva uma vida boa, então, como um rei que deixa para trás um reino conquistado, ou como um elefante solitário na floresta, segue o teu caminho sozinho.
330. Melhor é viver sozinho; não há camaradagem com um tolo. Vive sozinho e não faças mal algum; sê despreocupado como um elefante na floresta.
331. Bons são aqueles amigos, quando precisamos de ajuda; bom é estar contente com o que se tem; bom é ter mérito quando a vida chega ao fim, e bom é abandonar todo o sofrimento (pelo caminho do Arahant).
332. Neste mundo, bom é servir a mãe, bom é servir ao pai, bom é servir os monges, e bom é servir os homens santos.
333. Bom é ter virtude até ao final da vida, bom é ter fé que se mantém firme, bom é a aquisição de sabedoria, e bom é evitar o mal. 
Capítulo extraído do livro Dhammapada, de Buddharakkhita


segunda-feira, 17 de junho de 2019

Sobre a Opinião Alheia

Novamente meu Mestre disse: 

“Os praticantes Budistas costumam dizer: 'Se fizermos isto ou aquilo, poderão falar mal de nós.' Isto é um equívoco. Por mais que de nós falem mal, devemos seguir o Caminho, se este for o Caminho dos buddhas e ancestrais, ou a verdade do buddhismo; enquanto que, por mais que nos encorajem ou nos instiguem, não devemos seguir o caminho em caso contrário. A razão é a seguinte:
“Suponde que sigamos as opiniões de pessoas mundanas, íntimas ou desconhecidas, meramente baseados em seus louvores ou críticas. Quando estivermos às portas da morte, ou quando formos cair nos mundos maus como resultados de nossas ações más, não há esperanças de que estes nos salvem.
“Se seguirmos o Caminho dos buddhas e ancestrais, sem ligarmos para louvores ou críticas de pessoas no mundo, seremos de fato protegidos pelas entidades celestes. Logo, a despeito da crítica alheia, não devemos em hipótese alguma deixar de praticar o Caminho.
“Aqueles que nos criticam ou admiram nem sempre estão familiarizados com as ações dos buddhas e ancestrais, e nem sempre são esclarecidos. Como podem julgar o Caminho dos buddhas e ancestrais, a partir do ponto de vista moral do mundo? Portanto não devemos aceder à opinião do vulgo, mas simplesmente seguir o Caminho, se tivermos boas razões para tal.”
  
Trecho do Livro Shobogenzo Zuimonki