sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Registros de Nosso Rohatsu 2019


  
O Centro Zen do Recife agradece a todos que contribuíram para a realização desta semana de práticas intensas, de muito zazen, ensinamentos e aprendizado!







Kinhin






terça-feira, 17 de dezembro de 2019

RECESSO

O Centro Zen Recife informa que permanecerá com suas atividades cotidianas normalmente até o dia 20/12/2019. Após este período, ingressaremos em recesso.
Retornaremos às atividades a partir de 26 de janeiro de 2020.
 Nossa programação, em breve, será publicada neste espaço.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Rohatsu

No dia 8 de dezembro, nos centros budistas do mundo inteiro, comemora-se o Dia do Despertar do Buda. Portanto, na semana que antecede essa data, intensifica-se, em muito, a Prática. O Seirenji se junta com alegria a esse momento convidando todos os praticantes a participarem.

A intensificação da prática nesses dias especiais, além de nos levar sempre um pouco mais além dos limites de nossa própria prática, nos lembra, mais uma vez, dos nossos votos na busca de caminhar alegremente pelo Dharma, fazendo de cada momento da nossa vida um momento especial e único. Perceber, e mais, vivenciar isso é despertar em nós, cada vez e ainda mais, a "mente-que-busca-o-caminho", na busca e realização da “Prática Incessante”, de que nos fala Mestre Dōgen.

Atenção: Durante esse período, não serão dadas instruções para iniciantes.
Retornaremos às atividades abertas aos iniciantes, em breve!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Subiu na Montanha




Meister Eckhart disse:   “Nós lemos no evangelho que Nosso Senhor evitou a multidão e subiu a montanha.   Então ele abriu sua boca e os ensinou sobre o reino de Deus.”(Mat. 5:1)   Aqui é dito que ele deixou o rebanho, o qual significa a diversidade e subiu a montanha: Por que vocês estão agora aqui, por que vocês não estão na cidade? Vocês se separaram de seus pais, amigos  e conhecidos e vieram sozinhos para cá, aqui está a montanha. O instituto Kamalashila é a montanha. E vocês subiram a montanha.

Vocês já ouviram a voz de Deus? Talvez agora ainda não, mas talvez hoje à noite. Nós precisamos ainda um pouco de tempo para nos prepararmos, isto significa um processo. Primeiro nós precisamos nos preparar, isto quer dizer que nós precisamos cortar todas as nossas relações exteriores. Segundo - nós precisamos preparar o nosso ambiente. O ambiente aqui é muito bom. Isto aqui é um perfeito centro de meditação. Porém isto ainda não é o bastante. O problema somos nós próprios. Algumas vezes  temos o verdadeiro silêncio a nossa volta, e então o silêncio é tão barulhento, que  não conseguimos dormir à noite, assim  chegamos a ter saudade dos ruídos e barulhos da cidade grande. 

Então o ambiente não é suficiente, nós precisamos manter o silêncio dentro de nós mesmos, nossa própria natureza precisa ser silenciosa, para isso precisamos controlar nossos desejos e cobiças. Existem cinco tipos de desejo: O primeiro é o desejo de comer; segundo é o desejo de dormir. Para continuar a viver, precisamos comer e dormir, mas  demais também não é bom, por isso precisamos controlar ambos. O terceiro é o desejo por sexo, que é um campo importante e sagrado. Uma relação sexual pode nos dar muito prazer, mas muitas vezes depois provoca infelicidade. Quando comemos e dormimos estamos à sós. Na sexualidade, no entanto, estamos sempre envolvidos com um companheiro, por isso precisamos controlar o sexo. O quarto é o desejo por coisas materiais e o quinto é o desejo por status e fama.  Estes cinco tipos de desejos estão ligados aos cinco órgãos dos sentidos, os olhos, os ouvidos, a boca, o nariz e o tato. Através do controle destes cinco sentidos podemos preparar o nosso ambiente. E então podemos de fato nos ocupar com o corpo e a alma.


A prática do Zazen significa tornar-se Buda. E tornar-se Buda significa que cada célula, toda a carne e a pele tornam-se Buda através do Zazen. No início temos sempre dores, isto é natural, é o processo inicial. Nosso corpo é deformado, por isso temos no começo tais dificuldades. Depois vem a respiração. Uma respiração lenta, profunda e tranquila. E se nós assim respiramos, então esta é a respiração de Buda. A respiração  está em direta ligação com nossas emoções e estados de espírito. Quando  estamos muito zangados ou muito nervosos, então  temos uma respiração ofegante. Quando  choramos, temos uma respiração soluçante. Muito lenta, muito calma, e profunda, esta é a respiração de Buda. Façam-na! Se vocês o conseguirem, vocês serão Buda. “Buda, eu?”  “Sim”, “Eu, não”, “Sim, agora, você é Buda”  “Buda sem auréola”.   A respiração está em relação direta com o espírito e quando a respiração está calma e pacífica, então o espírito também está calmo e pacífico.

“Moisés foi para dentro de uma  nuvem e subindo na montanha ali ele encontrou a Deus e na escuridão ele achou a verdadeira luz.” (Ex. 20:21)  Moisés subiu na montanha e entrou na nuvem. Lá ele  enxergou nada, mas nesta escuridão ele achou a verdadeira luz. Subindo a montanha ele achou Deus. E assim nós precisamos subir a montanha. Eu disse que o Instituto Kamalashila é uma montanha e aqui nós precisamos subir a montanha e aqui precisamos ouvir a voz de Deus e aqui achar a Deus. Para nós, achar Deus significa achar a nós próprios. Achar-se a si próprios.   Seu verdadeiro Eu, que existia antes de nascer. Nós nos lembramos de um Koan do sexto Patriarca. “Quando não pensamos nem no bem e nem no mal, qual é então a nossa face original?”   Quando nascemos nós já temos o pecado original. Nós já somos maculados, por isso precisamos voltar à origem, antes do tempo, quando nasceram nosso pai e mãe.  Este estado se chama corpo de Buda cósmico.   Para isso precisamos de prática, naturalmente também compreensão e teoria. Mas isto não é ainda suficiente, por isso não devemos somente mudar corpo e espírito, mas sim nosso subconsciente, o campo desconhecido. Neste campo desconhecido temos muitos tipos de Karma em estoque.

No Sansuikyo Mestre Dogen diz que há quatro tipos de água. Para nós,água é água, desde que possamos bebê-la. Para os pobres demônios famintos ela não é potável. Para eles
água é pus com sangue e fezes. Para os peixes a água é como um palácio, e  o lar,  o espaço vital.   Se dissermos  para o peixe: a sua casa flui, então o peixe diria: “minha casa não flui”. Para anjos e seres celestiais a  água é  como espelho ou  pedras  preciosas brilhantes. Depende  pois  de nosso estado de consciência, de que modo nós vemos as coisas. Mesmo que todos estejam vendo a mesma coisa, cada um tem uma concepção diferente. Por isso devemos nos purificar, e neste momento nós achamos Deus. 

“Ele subiu a montanha.   Isto quer dizer que Deus com isto mostra a sublimidade e doçura de Sua natureza, da qual deve sair fora tudo aquilo que é criatura”

Subir a montanha significa sublimidade, refinamento. Este estado é muito elevado e esta prática é muito dolorosa, como galgar uma montanha não é muito fácil. Trata-se de uma montanha muito alta. Assim é a prática e o caminho do Zen. Muitas vezes este caminho muito escarpado não é para todos. Precisamos para isso tomar uma clara decisão. Linha reta, sem rodeios e as vezes também muito frio e  estamos muito sozinhos. Muitas vezes  ficamos primeiro com medo de estar sozinho, mas depois que nos confrontamos, nos  sentimos bem. Quando estamos  sozinhos, nos sentimos muito bem com a solidão. Um Mestre Zen disse que quando  estamos a sós sentados no Zazen, somos tão somente um e isto não é pouco. Quando  sentamos em  Zazen com trezentas ou até mil pessoas, não é demais. Isto significa que quando simplesmente sentamos então estamos no centro do universo e todo o universo é  simplesmente nós mesmos.  Esta é a maravilha do zazen. Cada um é o centro do universo. E todos os outros são uma parte de nós próprios. Possivelmente vocês agora entendem o significado de montanha. Para um mosteiro Zen sempre existem dois tipos de nomes, como também para os monges. Mestre Fuyodokai significa Dokai da montanha Fuyo. Todo monge Zen tem dois tipos de nome, o nome do Dharma e o nome do caminho da prática. Da mesma maneira cada templo tem dois nomes, o nome do templo e o nome da montanha. Antigamente todos os templos e mosteiros estavam nas montanhas. Também hoje cada templo na cidade grande tem dois nomes: o nome do templo e o nome da montanha, porque o templo é ele próprio uma montanha, o templo é a própria montanha. E aqui está a montanha Kamalashila. Nós estamos em cima da montanha e as nuvens estão embaixo de nós. Quando a montanha é muito alta,  as nuvens estão abaixo de nós e nós estamos sozinhos aqui. E estar sozinho significa que somos o centro do universo e o universo todo somos nós, além disso não existe nada.

Por favor, experimente no próximo Zazen: vocês são o centro do universo e tudo está no universo, o universo interior são só vocês próprios. Esta é a montanha do Dharma.

“Há muitos casos  em que um imperador visitou uma montanha para reverenciar sábios e buscar conselhos dos religiosos. Nessas ocasiões eles respeitam os sábios como seus mestres e prostram-se na frente deles, costumes sociais e hierarquias não são obrigatórios. Indiferente quão grande seja a virtude e o poder do imperador, sábios não se comovem com isso. Esses, que vivem nas montanhas, estão completamente separados da sociedade. 

Uma vez o imperador Ko, da China, visitou o ermitão Kosei na montanha Kodo. Ele se aproximou dele de joelhos e curvou a sua cabeça até o chão, para mostrar ao ermitão a sua humildade.

Shakyamuni deixou o palácio de seu pai e foi para as montanhas. O rei não alimentou ódio, não ficou irritado sobre o comportamento de seu filho e não discutiu a honestidade daqueles que iam até as montanhas para ensinar o príncipe.

As doze práticas rigorosas de Shakyamuni realizaram-se quase totalmente nas montanhas. Nós devemos saber que as montanhas não pertencem ao mundo dos deuses e nem ao mundo dos homens. Não procure se aproximar das montanhas, enquanto você usar somente sua limitada capacidade humana”, assim dizia Mestre Dogen.

Existem muitas histórias sobre mestres, como por exemplo a história de um mestre.  Ele vivia nas montanhas e o imperador queria convidá-lo para o seu palácio. Ele mandou um mensageiro com o seguinte convite: “Por favor venha a mim no palácio”.  Mas ele não foi; três vezes ele foi convidado, mas o mestre não foi lá. Quando um ministro foi até a montanha para ir buscá-lo, ele encontrou um homem pobre, que em um fogo de folhas secas cozinhava batatas doces. Ele estava de cócoras na frente do fogo e assoprava com bochechas cheias para dentro das chamas para aumentá-las. Seu nariz corria. O Ministro falou: “Mestre, Mestre!” “Espere, que eu estou ocupado”, disse o mestre e ele continuava assoprando o fogo.   O
imperador mudou de ideia de convidá-lo ao palácio mas com muito respeito e saudades ele o imperador mandou plantar  batata doce na montanha para que não faltasse batata doce para o Mestre.   O caso do Mestre Yakusan Iguen também o imperador enviou um ministro o convidando para a corte, mas o Mestre não ligou com isto.   O ministro ficou aborrecido e disse:  “Este Mestre não é tão formidável, eu vou me embora.” Quando ele se virou para ir embora, o Mestre Yakusan o chamou: “Ministro.” “Sim,” disse o Ministro, “Por que você respeita seus ouvidos, mas não seus olhos?” Vocês entendem?   Quando o ministro o olhou, ele pensou :  “Ah, ele não é tão importante” Quando ele ouviu a palavra “Ministro”, ele respondeu “Sim”, isto significa que seus ouvidos reagiram sem dúvida. Neste momento o ministro entendeu um pouco, e ele voltou para o Mestre Yakusan e perguntou: “Qual é o caminho do Buda?”  isto significa: o que é Buda? E Yakusan respondeu: “As nuvens estão no céu e a água está aqui na garrafa.” Após  isso o ministro se tornou um discípulo e começaram a praticar.

Este exemplo do Mestre Yakusan é só um de muitos. Buda Shakyamuni deixou o seu palácio e foi para as montanhas. Moisés foi para a montanha e Jesus também e agora nós aqui também vemos a montanha.

Por isso, quem quiser receber o ensinamento de Deus, precisa subir a montanha.

Com a prática do Zazen vocês podem receber o ensinamento de Deus, minha palestra aqui não é tão importante. Com Zazen vocês podem diretamente encontrar a Deus.
capítulo do livro A Virgem e a Mulher de Pedra - mestre Ryotan Tokuda Igarashi

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Zen e Empolgação

Meu mestre morreu quanto eu tinha trinta e um anos. Embora eu quisesse me dedicar inteiramente à prática do Zen no mosteiro Eiheiji, tive que sucedê-lo em seu templo. Com isso fiquei muito ocupado e, tão jovem ainda, deparei com muitas dificuldades. Essas dificuldades me deram alguma experiência, mas ela não significava nada comparada ao autêntico, calmo e sereno modo de viver. E necessário seguir a via constante. O Zen não é uma espécie de empolgação, e sim concentração em nossa rotina diária.
Se você ficar demasiado ocupado e agitado, sua mente se tornará grosseira e instável. Isso não é bom. Se possível, procure ser calmo, alegre, evitando agitações. Por via de regra, tornamo-nos cada vez mais ocupados, dia após dia, ano após ano, especialmente em nosso mundo moderno. Se depois de muito tempo retornamos a lugares que nos eram familiares, ficamos espantados com as mudanças. Isso é inevitável. Mas, se nos interessarmos demais por situações excitantes ou mesmo por nossa própria mudança, ficaremos envolvidos em nossa vida atribulada e nos perderemos. No entanto, se sua mente está calma e firme, você pode se resguardar do mundo barulhento, mesmo no meio dele. Apesar do barulho e das mudanças, sua mente conservará a quietude e estabilidade.
Zen não é uma coisa pela qual devemos nos empolgar. Algumas pessoas começam a praticar Zen apenas por curiosidade e com isso só conseguem ficar mais ocupadas ainda. É ridículo sua prática fazer com que você se torne pior. Eu acho que tentar praticar zazen uma vez por semana já o tornará suficientemente ocupado. Não fiquem demasiado interessados no Zen. Quando os jovens se entusiasmam com o Zen, acabam desistindo de seus estudos para irem a alguma montanha ou floresta a fim de praticar zazen. Esse tipo de interesse não é o verdadeiro interesse. Basta continuar a prática de maneira calma e regular e seu caráter irá sendo construído.
Se sua mente estiver sempre ocupada, não terá tempo para essa construção e o esforço será estéril, sobretudo quando se empenhar nisso com demasiado afinco. Construir um caráter é como fazer pão - é necessário misturar os ingredientes pouco a pouco, passo a passo, e requer uma temperatura moderada. Você se conhece e sabe qual a temperatura que lhe é necessária. Sabe muito bem do que precisa. Mas se ficar muito empolgado, acabará esquecendo a temperatura que lhe é adequada e perderá seu próprio caminho. Isso é muito perigoso.
O Buda fez a mesma observação a respeito do bom boiadeiro. Ele sabe qual o peso que o boi aguenta e evita sobrecarregá-lo. Você conhece seu caminho e o estado de sua mente.  Não se sobrecarregue.
O Buda também disse que construir um caráter é como construir uma represa. Deve-se ter muito cuidado ao erguer o muro de contenção. Se for feito precipitadamente, a água vazará. Levante o muro com cautela e terá uma boa barragem para sua água. Nossa maneira de praticar sem empolgação pode parecer um tanto negativa. Mas não é. Trata-se de uma forma sábia e efetiva de trabalhar sobre nós mesmos. É muito simples. Considero esta questão difícil de as pessoas compreenderem, especialmente as mais jovens. Por outro lado, pode parecer que estou falando de realização gradual. Tampouco é isso. Na verdade, este é o caminho imediato, pois, quando sua prática é calma e regular, a própria vida diária é iluminação.
Capítulo do livro Mente Zen, Mente de Principiante - Shunryu Suzuki, ed. Palas Athena

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Disciplina

“Quando se busca a ausência de atividade mental, há um estágio em que o esforço deve ser abandonado, pois é necessária uma concentração livre de qualquer empenho. A mente torna-se muito calma e chega ao estado de plenitude. Nesse momento, qualquer esforço pode perturbar a pura tranquilidade. Então, para manter essa tranquilidade, é preciso esforçar-se para não se esforçar. 
Disciplina é um supremo ornamento e, seja usada pelos velhos ou pelos moços, faz nascer apenas felicidade. É perfume por excelência e, ao contrário dos perfumes comuns que só viajam com o vento, seu aroma refrescante viaja espontaneamente em todas as direções. Bálsamo sem igual, proporciona alívio às dores intensas da ilusão e do engano”.  



Sua Santidade o Dalai Lama, no livro Palavras de Sabedoria, ed. Sextante